segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Recordando uma festa original no aniversário de Ijuí

Por Ademar C. Bindé


No dia 19 de outubro de 1967, quando Ijuí comemorava seus 77 anos de existência e 55 de emancipação política, aconteceu uma festa original, denominada “Prata da Casa”, num palco erigido em frente ao prédio da Prefeitura Municipal.
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Dom, 20 de outubro de 2013
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No dia 19 de outubro de 1967, quando Ijuí comemorava seus 77 anos de existência e 55 de emancipação política, aconteceu uma festa original, denominada “Prata da Casa”, num palco erigido em frente ao prédio da Prefeitura Municipal. A promoção foi organizada pelo Poder Público Municipal e pela Rádio Progresso de Ijuí.

Esse show ao ar livre contou om a participação de artistas locais, bandinhas da velha guarda e conjuntos da jovem guarda, coros, instrumentalistas, declamadores e outros. Quem nos lembra dessa promoção é o nosso amigo, professor Elard Dahlke, que na sua fazenda em Jataí, interior de Goiás,resolveu também abrir seu baú de recordações e foi encontrar uma crônica que ele havia escrito e apresentado durante aquela programação e que teve a gentileza de nos enviar.

Agora que Ijuí comemora neste 19 de outubro de 2013 seus 123 anos de colonização, achamos oportuno reproduzir, a seguir, o texto do professor Elard Dahlke:

Avante, pois, que esta prata é nossa!

Lentos, um a um, abrem-se os vastos e pesados portões da História. Silenciosos, em reverente respeito, giram os gonzos. Montado no Pégaso indomável, o morador do infinito escancara as cancelas. Apeia-se e queda mudo, a meditar.

Agora, envolto pelo véu azul, tinto de negro, ouve ao longe, muito ao longe, a voz de um homem (Amaury) a desfiar, em palavras escolhidas e vibrantes, sua prece, anunciando a magna festa. É 19 de outubro de 1967.

O céu é o palco imponente, pois as estrelas de Deus e as estrelas dos homens, no seu giro eterno ou temporário, também aceitaram o convite. Espreitam, porém, enciumadas, o esplendor dos arrogantes moradores cá de baixo. De inveja alternam seu brilho, cintilando nervosamente. Quedam, também, mudas e curiosas.

O céu de Ijuí é, neste momento, um intransigente egoísta da noite. Pavoneia-se e se banha na imensidão do Universo! Compreensivo e amoroso, um segundo véu estende-se um pouco além: O Rio Grande contempla, embevecido.

Sobranceiro, mantendo reservada e protetora postura, através da imensa abóbada que se alteia ao infinito, o Brasil sorri, solene e reconhecido! E, como um lamento, aos quatro ventos ecoa, veemente, o protesto de Fernão Dias Velho: “Esta Terra é boa! Quem diz o contrário, mente!”

E aqui, nós, colados à terra que nos abriga e nutre e que pisoteamos impune e dolorosamente, espiamos. Cheios de felicidade, cheios de angústia, cheios de amargura, cheios de esperança, cheios de ódio, cheios de amor, cheios de nós mesmos, nos debatemos numa sucessão interminável de interrogações!

Há momentos de emoção tão forte que, não fôra o aconchego reconfortante da multidão, o indivíduo sucumbiria, inexorável, se condenado a suportar, sozinho, a solidão aterradora.
Há momentos em que os homens se reúnem para equacionar e distribuir as cargas emotivas de vibrações intensas e vivificantes.

Há momentos em que o forte deixa rolar lágrimas furtiva e discretas sem se envergonhar; em que o cético crê; em que o medíocre, rastejando ainda, se extasia e empolga, reunindo das migalhas o seu banquete; em que o calculista calcula menos; em que ceder não constitui desmerecimento à intransigência!

Galgue, agora, ó poeta romântico, lírico ou realista, o palco desta Terra. Galgue-o, também você, historiador e dramaturgo, e cantem, contem e dramatizem com todos os recursos do seu saber e não terão dito mais que a centelha que inflamou os seus pensamentos!

Quem dentre nós, porém, não teria querido que os momentos ali vividos se perpetuassem e que, a vogar por plagas etéreas, as horas se estendessem incontáveis? Mais música, maestro! (Olívio)

Que a enxada e o arado cavem fundo a terra rica e dadivosa, ó agricultor! Que a forja forje firme e com destemor, ó industrial! Que o seu comércio, seja elo da função social como de qualquer outra atividade humana, ó comerciante! Que seja justa a sua justiça, ó doutor da lei! Que a sua técnica seja a nossa redenção econômica, ó técnico!

Que o seu suor, ó operário, regue a virtude, a nobreza e dignidade dos brasileiros! Que o seu equilíbrio, altruísmo e bom senso sejam o molde das gerações, ó professor! Que a sua força seja o anelo perpétuo de paz, ó militar! Que a sua ciência tenha como ideal imorredouro a verdade, ó cientista! Que a sua função liberal não se renda à liberalidade, ó profissional liberal!

Que o seu combate pela vida seja abençoado por Deus, ó médico! Que cada um sirva na medida dos seus dons naturais, ó homem! Que a todos nós envolva o amor no seu sentido mais amplo, sublime e divino, como único e inesgotável propulsor das realizações de todos os tempos, ó Criador!

É a noite de Ijuí. É a noite da RPI, é a nossa noite! Se ufanismo é pecado, seja desta vez! O homem rende-se ante o homem e pasma!

Contudo, sempre de novo arremete contra o turbilhão da torrente caudalosa e avassaladora do torvelinho existente. Vibra, canta e chora e no íntimo é feliz por poder, mesmo numa fuga fugaz da realidade, devanear, por instantes, em meio a tanto enlevo.

Já a massa palpitante é convocada a perscrutar os céus. Eis que irrompe fulgor tão intenso, imponente, que parcas e pobres de sentido e medíocres de significado são as palavras dos homens, para narrar a pompa de tal esplendor.

E o tempo não para. Corre, em sua marcha, impoluto. De repente, o vazio tão cheio! A solidão já se reconforta na recordação e saudade deste passado ainda tão presente.

Mergulhados em torpor mórbido e benfazejo, cultivando sua glória, por certo merecida, os corações da multidão sentem, tristonhos, um a um, os pórticos do cenário augusto se fecharem.

O morador do espaço imenso monta o seu corcel alado. Com arrebatamento e violência incontidas bate as canelas da sua morada e, taciturno, inicia o galope da retirada. Furioso, acuado por força indômita, esporeia a sua montaria e some no éter sem fim!

Então o céu da nossa adorada Pátria se alarga em manto acolhedor e nos convida ao repouso e abençoa, ainda, o Rio Grande e esta boa terra de Ijuí, nos versos ardentes despejados ao vento com paixão febril pelos poetas que os criaram e os tornaram imortais.

De Cassiano Ricardo:


Ao Imigrante


“Vens de um mundo que sangra
Por milhões de feridas no corpo.
Trazes o dia de amanhã nos teus olhos
E a dor consciente das encruzilhadas
No coração e, na roupa, em remendos
E de todas as cores
O mapa de todas as Pátrias.


E como a terra te dirá bom-dia
Em cada fruto e como aqui se toma
O leite agreste da democracia!”


E de Castro Alves, a prece de esperança, revolta e protesto por uma época:


“Auriverde pendão de minha terra
Que a brisa do Brasil beija a balança
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas de esperança


Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha
Do que servires a um povo de mortalha.”


Ijuí, outubro de 1967

Elard Dahlke

Leia também o Blog do Ademar Campos Bindé

Veja imagem ampliada de Elard Dahlke:


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Um comentário:

  1. Boas lembranças do professor Salle!!!falando sobre inflação. ..1964...

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